Ferrari

A viagem até Maranello

A ida de Lewis Hamilton para a Ferrari caiu como uma bomba no mundo da Fórmula 1. O piloto mais vitorioso da história da prova rainha do desporto motorizado junta-se à equipa mais vitoriosa, o casamento perfeito. Mas esta não é a primeira mudança de equipa para Hamilton, é sem sombra de dúvidas a mais mediática, não é a mais difícil e dificilmente terá um impacto maior do que a primeira. 

O que realmente motivou Lewis foi a ideia de pela primeira vez na sua carreira, tomar um passo de fé.

Aos 13 anos Lewis assinou com a McLaren que desde aí apoiou toda a sua carreira de single seater. Ron Dennis, na altura team principal da McLaren encontrou um verdadeiro diamante e tudo isto culminou na estreia de Lewis Hamilton pela McLaren em 2007 onde perde o campeonato por um único ponto como rookie para Kimi Raikkonen, um feito inédito e que provou que o piloto britânico era o real deal, e um extraordinário investimento da parte de Dennis. Em 2008 Hamilton sagra-se campeão pela McLaren e cimenta o seu nome na história do desporto. Nos anos seguintes vemos o milagre de Ross Brawn em 2009 (um elemento importante nesta história.) e a Hegemonia de Sebastian Vettel a começar na Red Bull. 

Vamos agora dar um salto para 2012, depois conto de fadas da Brawn GP em 2009 e dos dois campeonatos de quatro de Sebastian Vettel na Red Bull. Nos 4 anos que passaram desde 2008, a McLaren manteve-se competitiva e a lutar por vitórias, terminando sempre no top 3 de construtores mas ao longo deste tempo foram-se mostrando rachas na estrutura da equipa de Woking. Técnica e operacionalmente, a equipa estava a trabalhar longe daquilo que era esperado, embora o carro que desenvolveram para a época de 2012, o MP4-27 fosse capaz de bater o Red Bull de Sebastian Vettel quando conduzido por Hamilton em flying lap, o carro era algo estranho, tinha imensos problemas de fidelidade, o desgaste dos pneus era incrivelmente inconsistente e assim que começava a chover, o carro perdia-se por completo, algo relatado por ambos os Britânicos que o conduziam na altura, Lewis Hamilton e Jenson Button que curiosamente, nunca tiveram problemas em conduzir à chuva, sendo eles até a cima da média nesta métrica. As pit stops eram também um problema enorme para a equipa durante toda a época algo que afetou ambos os pilotos mas os problemas mais graves deram-se em pista, nos grandes prémios de Espanha, Singapura e Abu Dhabi. O episódio mais insólito foi sem dúvida o do Grande Prémio da Catalunha. Hamilton tinha garantido a pole na sessão de qualificação mas os mecânicos da McLaren julgaram mal a quantidade de combustível necessária, o que fez com que o piloto não conseguisse acabar a cool down lap, e tivesse de começar a corrida do dia seguinte no fundo da grid. Este foi um erro crasso da McLaren tendo em conta que a luta pela vitória desta corrida foi entre Pastor Maldonado no Williams e Fernando Alonso no Ferrari, ambos carros mais lentos que o McLaren, o que significaria que em condições normais, Hamilton a sair de pole teria uma elevada chance de vencer a corrida. 

Em Singapura, Lewis liderava a corrida de maneira confortável até sofrer um problema nas mudanças e foi aqui um dos primeiros contactos e talvez dos mais importantes, a reunião com Niki Lauda, presidente não executivo da Mercedes AMG Petronas F1 team. Em Abu Dhabi novamente liderava e a caminho da vitória quando sofreu um problema com a pressão do combustível. Em todas estas corridas, Lewis parecia destinado a ganhar e a garantir 75 pontos para ambos os campeonatos, mas dado os acontecimentos estes 75 pontos foram divididos por Sebastian Vettel e Fernando Alonso, Red Bull e Ferrari  que acabaram a época à frente de Hamilton e da McLaren e para a Williams e Pastor Maldonado, isto foi um completo tiro no pé para a championship charge de Lewis e da sua equipa. 

Este acumular de erros fez com que Hamilton comunicasse ao seu manager que seria altura de começar a sondar o paddock à procura de opções. Houve conversas com a Red Bull e a Ferrari, mas nenhuma destas era uma opção viável, a Red Bull estava com imensos problemas internos devido aos constantes problemas entre Vettel e Webber e juntar Hamilton a Seb seria um agravar da situação enquanto a Ferrari contava com Fernando Alonso que tinha sido colega de Hamilton na McLaren e a sua relação nunca foi espetacular.  Esta não foi uma decisão fácil e a componente emocional é muitas vezes ignorada no desporto mas a McLaren era tudo o que Lewis conhecia, foram quase 15 anos de ligação e de apoio incessante da construtora a Hamilton, algo a qual não é fácil virar as costas, mas aí apareceu a Mercedes de Ross Brawn e Niki Lauda. 

A Mercedes era uma equipa recém-formada mas com um passado longínquo no desporto, após a Daimler AG (Empresa mãe da Mercedes) realizar a compra da Brawn GP em 2010, a Mercedes voltava pela primeira vez à Fórmula 1 como equipa construtora desde 1955. Ross Brawn manteve-se como team principal e com a ajuda de Niki Lauda conseguiram convencer Lewis a deixar uma equipa que lutava por vitórias todas as épocas por uma que virtualmente só tinha ganho uma corrida em mais de 50 anos. Olhando para trás é fácil dizer que foi a escolha correta mas em 2012 esta mudança foi apelidada de suícidio profissional para Lewis Hamilton e a única motivação para tal seria financeira, o que é uma afirmação errada tendo em conta que a McLaren igualou o salário oferecido pela Mercedes. 

O que realmente motivou Lewis foi a ideia de pela primeira vez na sua carreira, tomar um passo de fé, na McLaren ele ia ser sempre o projeto de Ron Dennis, a vencer numa equipa que tinha sido construída para ele, na Mercedes ele tinha a oportunidade de pela primeira vez, conseguir construir algo e crescer como índividuo pelas suas mãos e depois de varías reuniões com Lauda e Brawn em que foi convencido por ambos que o projeto teria asas para voar e que a Mercedes era a construtora melhor posicionada para a mudança de regulamentos de 2014, Lewis Hamilton deu o passo em frente e depois de uma temporada de 2013 algo pacata,  o resto é história. Criou-se uma verdadeira dinastia e a parceria com mais sucesso na história da Fórmula 1.  6 campeonatos de pilotos, 8 campeonatos de construtores, 105 vitórias, 104 pole positions e 202 pódios. 

De certa maneira é possível fazer alguns paralelos entre ambas as mudanças, desde 2022 que Hamilton afirma não se sentir confortável com a direção do desenvolvimento da Mercedes, já o verbalizou inúmeras vezes, e a realidade é que técnica e operacionalmente a Mercedes está milhas abaixo do que nos habituou na última década, assim que quando John Elkann, diretor executivo da Ferrari e Fred Vasseur bateram à sua porta, Hamilton viu novamente um desafio a aparecer à sua frente, de reviver o gigante adormecido que é a Ferrari e de poder vencer de vermelho, talvez a maior honra que este desporto reserva. Maranello encontra-se numa trajetória de subida desde a chegada de Vasseur em 2022 e ao poder contar com Hamilton, a Ferrari tem nas suas mãos um vencedor nato, com perfeita noção do que é um carro vencedor junto de Charles Leclerc, Il Predestinato que tem provas dadas de quando tem nas suas mãos um carro capaz de competir apresenta resultados inégaveis, basta olhar para os seus resultados pós summer break em que lidera o campeonato de pilotos em pontos. Com estes dois podemos facilmente afirmar que a Ferrari conta com o melhor par de pilotos para a época de 2025 e com o input de Hamilton no desenvolvimento do carro podemos realmente afirmar que possa ser o ano em que vemos a Ferrari regressar à glória.